Bollywood versus Hollywood

A intraduzibilidade dos gestos.

Quem já teve o prazer de legendar ou fazer texto de dublagem para filmes indianos?
Posso levantar a mão com muita alegria. Essa tem sido a melhor experiência da minha vida e o maior desafio também.

Legendar os filmes deles não é tão fácil quanto os de Hollywood. Por serem ocidentais como nós as diferenças não são tão gritantes. Sei que todo o filme tem suas dificuldades, que há desafios principalmente quanto aos neologismos em inglês, mas há outros fatores nos filmes da Índia que complicam a tradução.

A primeira é: Não conhecemos a cultura deles!

Ah, sei, teve a novela “Caminho das Índias”, aliás, muito bem feita, Glória Peres conseguiu se superar e dou graças a Deus de ter assistido, tem ajudado e muito nas traduções.

Mas a cultura indiana é milenar, o hinduísmo tem um panteão de deuses, o povo dos Aryans transmitiam os Vedas oralmente e demorou que chegassem à linguagem escrita do sânscrito.
Não conhecemos o verdadeiro Kamasutra. Pois as traduções que temos por aí não são verdadeiras e deturparam o verdadeiro sentido de ser um pacto entre os casais do que é ou não aceito pelo seu companheiro (a).
Não entendemos os significados de seus gestos. Preciso fazer um adendo aqui, dizem que italianos falam muito com as mãos, confesso que mudei de ideia depois de conhecer melhor os indianos, eles falam com o corpo INTEIRO! TODOS OS GESTOS DELES TEM SIGNIFICADO!

O Híndi (idioma oficial) tem entre 18 dialetos, Punjabi; Urdu; Gujarati… além do inglês deles que contém expressões que nunca vimos, ouvimos (ex: My foot! que seria “O caramba!” “Até parece!”) no idioma falado por britânicos, americanos, entre outros.

Os filmes indianos tem tudo isso, assim como a sonoridade da fala, as músicas (que contam a história também) e grande parte deles têm mais de 3h00!!!

Para que tenham uma ideia observem a música “Salaam” do filme Umrao Jaan com Abhishek e Aishwarya Rai Bachchan (astros de Bollywood juntamente com o “Big B” Amitabh Bachchan). Tem no youtube e fez parte da trilha sonora da novela global. A dança e as mulheres que estão ao redor fazem gestos o tempo todo e para quem não conhece fica difícil de compreender o filme e nós tradutores não temos como colocar legenda explicativa.

O que me espantou mesmo foi que o mesmo “Big B” fez um filme, uma releitura de Aladin em 2009, no qual ele é o gênio da lâmpada. Na parte do filme com a música “O Re Saawariya” ele e Jacqueline Fernandez fazem um verdadeiro sincronismo de dança com os olhos, as sobrancelhas, expressão… gente, são exímios dançarinos! Não dá para copiar!

Os movimentos das danças possuem fundamento nos movimentos do Yoga como podemos ver claramente no filme “The Guru” na música “Tere Bina” também com o casal Abhishek and Aishwarya Rai Bachchan.

Este tipo de cinema é fascinante, são inocentes em grande parte, possuem uma sensualidade de gestos – notem bem SENSUALIDADE, não sexualidade vulgar como conhecemos. No “Kabhi Alvida Naa Kehna” com outro grande astro Shahrukh Khan, no trecho com a música “Mitwa” ele passa o copo que bebeu para seu par romântico do filme Rani Mukherjee para que ela beba no mesmo lugar… isso tem muito nos filmes, porque o ato de tocar o outro é sagrado e somente ocorre após o casamento.

O colorido! Ah, o colorido dessas obras cinematográficas é lindo! Não há o que comentar, só vendo para entender.

Depois de conhecer essa cultura maravilhosa, é difícil voltar aos filmes Hollywoodianos. Tem muita gente que já não gosta e prefere os europeus, mas confesso que a maioria é de uma filosofia pesada e de compreensão difícil. (Em minha humilde opinião). Acho que ver filme é um ato de distração, abstraimento do real e por isso filmes com conteúdo mais denso como os que já vi da França, Alemanha, etc, não chamaram tanto minha atenção. Mas isso também é questão de gosto e mesmo os filmes indianos têm obras neste sentido como o “My Name Is Khan”, também protagonizado por Shahrukh Khan.

Outro fato interessante é que Bollywood produz o dobro de filmes de Hollywood!

Ou seja, é filme que não acaba mais minha gente! Olha o mercado que o Brasil está perdendo!
Esses filmes deviam fazer parte de nossas bilheterias!

Bom, como esse meu trabalho no blog é exíguo, não dá para explicar tudo em uma páginas só, mas não se preocupem, haverá continuação.

Abraços,

Ana Carolina Konecsni

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