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Em todo caso

Um terrorista pedófilo, um narrador implacável. Em seu sexto livro, Azevedo constrói um narrador cuja metralhadora atira para todos os lados, menos para o espelho. Espécie de novela-ensaística, Em todo caso honra a tradição de textos malditos e insere definitivamente o autor na galeria dos escritores que colocam a estética acima de tudo.

Esta obra também pode ser lida em espanhol e inglês.

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Trecho do livro

3.

Foi sempre meu irmão e nunca outra pessoa quem mereceu todos os festejos da família. Tudo o que acontecia em nossa casa era fruto de uma tentativa constante de agradar o príncipe herdeiro, o sultão da italianada. Eu era um dos filhos. Ele era o principal.

Quando eu ficava doente, a preocupação era com a cura do irmão do meu irmão. Quando tinha crises de asma, os pais dele cuidavam de mim para que minha vigília não atrapalhasse seu sono.

Eu era a pedra. Ele era o solo.

No dia em que finalmente foi embora, andei pela Paulista em busca de algo que somente um padre conseguiria dizer o que era. Tinha 16 anos, vivia até então como uma mosca numa caneta. Agora era o campo vasto. Agora era a cordilheira.

Na esquina com a Bela Cintra, três taxistas comentavam sobre o acidente com uma marquise na Augusta. De longe se ouvia uma sirene. De perto, vi uma bandeja do IML recolhendo um corpo feminino. Meu irmão voltou nos braços daquele cadáver sujo de farelo. É, afinal, o que fazem todos os mortos: matam os vivos. É preciso acabar com eles antes. Atirar nos cadáveres, limpar com cloro as tripas das mãezinhas que morrem deixando os órfãos no meio da praia. Todos os mortos querem estar no seu lugar. Foi com isso que eu contei até hoje, com essa capacidade de adivinhar de onde viria o cuspe disfarçado de beijo. Ao final da adolescência, minha vida amorosa se resumia a duas pilhas de revistas pornográficas e uma vizinha que me deixava tocar suas pernas em troca de ajuda nos temas de Química. Foi aí que descobri a força.

Sarah era a filha da empregada. Logo que a mãe morreu, muita gente foi lá pra casa com a desculpa de cuidar do pai.

A vítima tem sempre 14 anos. As negras, isso é sabido, nasceram para se foder.

Resenha

Escrevo dentro de um avião. Muitos mil pés me separam do solo, digo, do mar. Há um mar que parece não ter fim lá embaixo. E outro se formando sobre as palmas das minhas mãos. A vizinha loira da fila 3 não cogita desligar o celular. Devem ter bons motivos para pedir que sejam desligados, certo? O rapaz da 4 saca um mp3 player do bolso da jaqueta. Esbugalho os olhos para o comissário que corresponde com um sorriso afável. Sim, claros sinais de pânico me consomem. E a culpa é do Maurício.

Nunca tive ímpetos de Fernão Capelo Gaivota, mas a idéia de voar ganhou contornos especialmente extravagantes desde que li este livro. E não se trata de medo do avião em si, é bom esclarecer, mas da suspeita de que o mal possa estar a bordo. Aliás, andar na rua também já não me parece coisa recomendável.

Tranque-se em casa, você pensa, mas nada lhe garante que ele, o mal, não esteja arquitetando algo no apartamento ao lado. Ou ao seu lado na cama.

Logo, me sinto obrigada a fazer um alerta ao leitor deste livro: vire a página e terá momentos de profunda intranqüilidade. Caso esteja em busca de uma leitura apaziguadora e edificante antes de uma boa noite de sono, afaste-se dele. Algo maligno, porque real, porque real sem concessões, crescerá sob seu olhar estupefato. E você será refém até que ele decida por um fim à sua dependência.

Mefistofélico, Maurício lhe pega pelo colarinho e arrasta-lhe humanidade abaixo. Durante o percurso, você gostaria que tudo não passasse de invenção de uma mente perturbada, mas sabe que se trata da perturbação do nosso tempo. Não há como deixar de ler Em todo caso até que se saiba aonde isso pode chegar. Em seu íntimo, você sabe, embora prefira, a maior parte do tempo, ser poupado. Maurício não nos poupa.

Aqui estamos diante de um desses livros que nos faz lamentar e temer o homem, acreditar num personagem e festejar um autor.

Henry Miller escreveu que a tarefa implicitamente imposta a si próprio pelo artista é derrubar os valores existentes, fazer do caos que o cerca uma ordem que seja sua própria, semear discórdias e fermento para que pela descarga emocional aqueles que estão mortos possam ser trazidos de volta à vida.

Pois este é o caso.

Manoela Sawitzki

Sobre o autor

Foto do autor

Maurício Azevedo é escritor e mestrando em Comunicação Social.

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Comentários (1)

Marcelo Santos Costa

29 / 09 / 2009 - 11:45    


Gostei, livro bom sem frescuras de um niilismo descarado. Não teve como não lembrar (de leve) os escritos do Marcelo Mirisola. Digno de chutes no balde, palmas e brindes de pinga pura em copo de requeijão!

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