A Incrivel Receptividade aos E-books no Uruguai – terra de nativos digitais

4a. Feria de promoción da lectura y el libro
De volta a Porto Alegre, após 5 dias em San José de Mayo (Uruguai), onde estive como convidado da 4a. Feira de Promoção do Livro e da Leitura, aqui vão minhas impressões finais sobre a experiência, que comecei a relatar alguns dias atrás.
Geograficamente próxima de Montevidéo, a Feira é um evento internacional com delegações de editores e autores sul-americanos (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Venezuela), representações estrangeiras de países europeus, inúmeras atividades culturais promovidas por embaixadas. Uma cena cultural diversa, vibrante, bem diferente da que vemos em algumas partes do Brasil. Sobre a cidade, comentei no post anterior, muito bonita. As pessoas de lá também, formidáveis, interessantes, inteligentes.
Tive muitas surpresas. Sempre boas.

Estudante uruguaia no fim da tarde, usando seu notebook XO, criado pelo programa OLPC (One Lapto per Child). Segundo me disseram, todos os estudantes uruguaios, do equivalente ao Ensino Fundamental no Brasil, ganharam um desses.
Todos os niños uruguaios ganharam um computador do governo, aquele incentivado pelo OLPC do Negroponte. São dezenas de milhares de computadores nas mãos das crianças, que usam as máquinas para tudo – ouvir músicas, gravar vídeos, navegar na Internet. Crescem como nativos digitais, graças ao investimento inteligente do governo. A iniciativa é muito recente lá e abriu um enorme campo para a produção de conteúdos para os jovens. Obviamente penso nos e-books, mas imagine a gama infindável de abordagens pedagógicas inovadoras, que ainda estão por ser criadas, capazes de tirar o máximo proveito dessa situação.

Cartaz com atividade da Plus
E como os uruguaios estão interessados nos e-books. É do outro mundo. Primeiro, havia um clima de expectativa antes das minhas apresentações, a respeito do que viria. Me apresentei três vezes, em duas mesas-redondas e em uma atividade solo. Nas duas mesas, muitas perguntas – como eram os direitos autorais?, como fazer livros grátis e não ganhar dinheiro?… detalhe: não sei falar espanhol. E não falei portunhol, só português. Algumas pessoas não entendiam, mas a grande maioria pareceu compreender bem as minhas falas.
Minha apresentação solo foi uma experiência gratificante. Dividi em duas partes: uma rápida exposição de um e-book da Plus no computador, em PDF e via datashow, seguida de uma exposição mais longa e muito mais interessante: mostrar como era a leitura em diversos aparelhos diferentes: no iPhone, no Nokia E71, no Sony Reader. Foi as 19h e tinha cerca de 2o, 25 pessoas. Organizei um semi-círculo e fui passando os aparelhos, explicando como funcionava a leitura, quais as diferenças de funcionamento, o que era mais conveniente e quais as desvantagens de cada um. As pessoas se entusiasmaram. Quando souberam que o Sony Reader, novo, custava US$ 199,00 nos Estados Unidos, o que me diziam? “Mas não está tão caro! Posso colocar nele quantos livros quiser, vale a pena”. Meu queixo caiu. E não eram as pessoas mais cheias da grana que estavam me dizendo isso.

Mesa redonda: Las nuevas tecnologías de información. Ao meu lado, de blusão vermelho, Eduardo Palermo (Foto por Sofía Bauzá)
O iPhone já era conhecido de vários. O E71 chamou atenção por permitir anotações (via Mobipocket). O Sony Reader impressionou muito mais, claro. Duas senhoras, já bem além dos 50 anos, me perguntaram como se fazia para passar os livros ao aparelho. Outros queriam saber como era o formato, quais as tendências para os dispositivos, o que viria pela frente e se teria um padrão, um dia. É claro que falamos também nos livros de papel, de como os e-books continuarão em desvantagem, enquanto o progresso do suporte eletrônico não for capaz de superar o papel em alguns elementos: a capacidade de fazer anotações e compartilharmos essas com outras pessoas; maior facilidade para obter e ler os livros nos dispositivos; telas coloridas; enfim.
Networking é algo extraordinário. Conheci pessoalmente pessoas com que eu já falava antes, por e-mail, como o professor Eduardo Palermo, diretor da revista eletrônica Estudios Históricos, uma publicação científica sobre temas de História – que tem um trabalho bastante complementar às iniciativas da Plus, com quem espero trabalhar junto em breve. Conheci também a professora Celeste Verges, que organizou a Feira. Infelizmente, a mãe de Celeste, uma senhora com respeitáveis 94 anos, precisou ser hospitalizada justamente no dia que a Feira abriu, e até o meu retorno, a situação continuava a mesma – Celeste acompanhava sua mãe no hospital todo o tempo. Torço que tudo fique bem.

Eu e a Marina Colasanti, na noite brasileira organizada pela Embaixada do Brasil, em San José.
Também conheci a Marina Colasanti, uma autora acima de qualquer suspeita, excelente companhia nos almoços e jantas que organizamos lá. Ela me disse que teve um e-book publicado, alguns anos atrás, mas sem maiores repercussões. Tem uma preocupação muito consistente com a pirataria e o formato dos livros nos diferentes dispositivos. Quando eu mostrei o Sony Reader, na primeira vez que nos vimos, ela até fez troça dele, achou sem graça, quadrado e sem cor. Mas eu desarmei o argumento dela, quando mostrei o mesmo livro, só que visto no iPhone – tela colorida, aparelho cool… rimos e nos divertimos muito. Que humor agradável! Agudo, entre o sutil e o ferino.
Na última noite que passei no Uruguai, dia 01/10, fomos a uma atividade no Club Fraternidad. Uma noite brasileira, promovida pela Embaixada do Brasil em Montevidéo. Uma escola técnica preparou uma desgustação de comidas brasileiras, teve a apresentaçao de um grupo de capoeira… com capoeiristas uruguaios. Muito legal. A turma da Embaixada está agitando diversas atividades culturais no Uruguai, o que é ótimo para a imagem do Brasil. Nessa noite conversamos, entre outras coisas, desde os limites do ser humano para ouvir Djavan, até os destinos de Amélia, aquela que era mulher de verdade – e também temas mais sérios, como a forma de trazer um autor para falar em sala de aula, e as possibilidades de execução, no Uruguai, do projeto Faça um E-book na Escola. Já pensou, termos um e-book escrito pelos niños? Será uma alegria muito grande. A internet, a rede e a colaboração nos permitem alcançar essas possibilidades estupendas.
Conheci tantas pessoas mais. As chicas da delegação venezuelana, autores do Chile, outros do Prata. Gente interessante por todo lado.

Plaza de los 33 - 01h30 da madrugada. Ao fundo, a Catedral de San José, erguida no século XVIII, quando a cidade contava com somente 2.000 habitantes.
A cidade de San José de Mayo é um lugar especial. Tem Wi-Fi grátis em vários locais públicos da cidade, embora nem sempre funcionasse a contento. A arquitetura dos prédios da cidade também chama atenção. San José tem 226 anos de existência, sua fundação data de 1783. Quando tinha cerca de 2 mil habitantes, em meados do século XIX, foi erguida a catedral que está na foto – uma prova e tanto de fé. Vários prédios antigos, públicos ou privados, estão preservados ou em restauração.
Toda vez que eu ia fazer compras no mercadinho que tem no Centro, duas funcionárias ficavam me vigiando, para terem certeza que eu não iria roubar nada. Era muito engraçado: eu trocava de gôndola, elas me acompanhavam à distância. É muito desagradável. E isso seguiu acontecendo, mesmo depois de ter comprado várias vezes lá, de forma ordeira. Infelizmente, foi o único mercado que encontrei, tinha que aguentar. Mas eu encontrei um jeito de me divertir com isso. Teve uma tarde que fiquei caminhando lá dentro, por vários minutos, até comprar o que eu já sabia que queria, só para deixar elas bem alvoroçadas.

Sede da rádio 41 - a maior audiência do departamento de San José, onde fui entrevistado pela jornalista Sofía Bauzá.
Como é uma localidade pequena, as atividades públicas ficam mais concentradas na praça central, o arranjo clássico: a catedral, a prefeitura, o principal clube da cidade e os bancos, ao redor da praça central. Meu hotel ficava a duas quadras da praça central, e na mesma quadra da rádio 41, onde dei entrevista. Porto Alegre ainda é um pouco assim também, me senti como se estivesse em casa. Foram dias muitos felizes, sem dúvida.
San José me passou uma grande sensação de segurança, pelo menos nos lugares por onde andei – basicamente o Centro do município. Você consegue se imaginar andando na rua com uma mochila vermelha carregando um iPhone, um notebook, um Sony Reader, um Nokia E71 e uma câmera digital, de noite, às 21h? Em quase qualquer cidade do Brasil, mesmo nas menores, é quase certeza de tragédia. Mas lá não. A gente não tem noção do quanto isso faz diferença no cotidiano, até experimentar a sensação.
Sem dúvida, o saldo final da Feira foi muito positivo, tanto pessoalmente, quanto para a Plus. Será muito produtivo, enriquecedor, trabalhar em conjunto com o pessoal do Uruguay nos projetos que temos em andamento, e nos projetos que surgirem a partir das parcerias. O conhecimento não deve conhecer fronteiras. O Pierre Levy está certo, precisamos encontrar uma semântica universal, que permita a todos falarem com todos – a riqueza dos seres humanos está mesmo na comunicação.






Cara, fantástico saber dessas tuas experiências na Feira, me parece que conquistaste uns bons adeptos tanto do ebook quanto da Plus!
Impressiona de fato a qualidade de vida e a modernidade dessa pequeña ciudad. E o XO tem recursos que deixam os adultos se perguntando, “Porque meu laptop não tem isso? Também quero! (biquinho)”
Networking realmente é algo muito bom. Adoro feiras e conferências, não há nada igual!