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“Livro não é mercadoria, escritor não é profissão e nós somos uma editora” – A economia de informação em rede

dezembro 21, 2009 (Artigos) 12 Comments

Lineu Oliveira

Lineu Oliveira

O artigo a seguir foi escrito por Lineu Oliveira, que começou a trabalhar recentemente como voluntário da Plus. Ele é professor de História e especialista em Relações Internacionais. Ele já colaborou conosco na revisão do livro Aprendendo com o bairro Ipanema e está produzindo o nosso primeiro audiobook (breve no ar!). Boas vindas, Lineu, ao blog da Plus! – E.M.

Vivemos um momento de significativa transição na maneira como produzimos distribuímos e acessamos informação. Yochai Benkler, autor do livro The Wealth of Netwoks, talvez uma das mais importantes obras que discutem as transformações econômicas e políticas decorrentes da popularização da rede mundial de computadores, descreve detalhadamente as diversas conseqûencias decorrentes da emergência da economia de informação em rede. Segundo ele, durante os últimos 150 anos, as modernas democracias complexas dependeram estritamente de uma economia de informação industrial para se organizarem. Na última década e meia, estaríamos vendo um mudança radical desse modelo cultural. Possibilitada por transformações tecnológicas, Benkler afirma que estaríamos presenciado uma série de adaptações econômicas, políticas e sociais que tornam possível uma câmbio radical na maneira como construímos o ambiente informacional que ocupamos enquanto indivíduos e cidadãos.

A mudança estrutural que acredita-se está em curso, potencializará, como já é possível perceber, um numero muito maior de iniciativas de produção de cultura não-proprietária e orientada para além do mercado. Estas novas práticas emergentes possuem um sucesso notável em áreas tão distintas quanto desenvolvimento de software, jornalismo investigativo, pesquisas científicas e jogos multiplayer online. Embora estruturadas em torno de objetivos muito diferentes, essas práticas possuem modelos organizacionais semelhantes. São descentralizadas, baseadas na colaboração aberta de indivíduos dispersos geograficamente, envolvidos de forma voluntária e autônoma por afinidades políticas, culturais e morais.

Mas, assumindo que a natureza humana não mudou na última década e meia, quais são as bases materiais que possibilitam a emergência dessas iniciativas no centro da economia capitalista mundial?

Uma resposta breve para essa pergunta reside no colapso dos custos de comunicação a longas distâncias. No último século e meio, as tecnologias de comunicação tenderam a concentrar e comercializar a produção e a troca de informação na proporção em que ampliavam o alcance geográfico e social. Prensas mecânicas volumosos e o telégrafo, combinados com modelos de gestão para transformarem jornais locais de baixa circulação em mídia de massa. E na medida que esse modelo midiatico se expandia, o fluxo de informação se tornava, cada vez mais, uma via de mão única. A audiência crescia, assim como sua dispersão geográfica e social, e o discurso público (ou opinião pública) amplamente divulgada, formadora da base compartilhada da conversação política e do entendimento cultural provinha crescentemente dos produtores comerciais de capital-intensivo em direção a consumidores passivos e indiferenciados. Esse modelo foi adotado também pelo rádio, pela Tv, e posteriormente pelas comunicações a cabo e satélite.

A internet é o primeiro meio de comunicação moderno que amplia o seu alcance descentralizando o capital estrutural de produção e distribuição de informação, cultura e conhecimento. Os servidores e roteadores não são muito diferentes, do ponto de vista técnico e econômico, dos computadores pessoais. O mesmo não pode ser dito quando falamos do rádio e da televisão, por exemplo. Boa parte do capital físico que alicerça a rede mundial de computadores está descentralizada e pertence aos próprios usuários. Estas mudanças nas condições materiais de produção e distribuição de informação e cultura têm um impacto forte na forma como concebemos o mundo que ocupamos, assim como as alternativas de ação coletiva possíveis.

A produção social colaborativa, ou a produção social por pares, seja lá como descrevamos este fenômeno, é umas das alternativas que se tornaram viáveis. Há dez anos atrás, se alguem propusesse escrever a maior enciclopédia do mundo, baseada no trabalho voluntário de milhares de colaboradores, cujo produto seria disponibilizado gratuitamente para milhões de pessoas, no mínimo, duvidaríamos da sanidade mental do proponente. Pois a Wikipédia existe. Se há dez anos, alguém dissesse que o processador mais poderoso do mundo seria construído com base na contribuição voluntária de milhares de pessoas disponibilizando a capacidade de processamento ociosa de seus computadores pessoais, seríamos céticos dainte de suas possibilidades de sucesso. Pois o Folding@home existe. Isso tudo pra não mencionar o primeiro projeto de todos, e talvez o de maior sucesso baseado nesse modelo, o desenvolvimento do sistema operacional aberto/livre GNU/Linux.

As empresas capitalistas mais inovadoras reconheceram a importância do conteúdo produzido por usuários, e se utiliza dele para produzir valor. Como em qualquer mudança brusca de produtividade, as empresas mais ousadas buscam maneiras inovadoras de extrair lucros diante de um novo cenário produtivo. Youtube, Google, IBM são alguns exemplos paradigmáticos. Porém, o que há de peculiar neste cenário, é que boa parte deste novo modelo produtivo de informação, cultura e conhecimento extrapola o universo mercadológico. Estamos falando de ações coletivas que não se orientam pela necessidade de lucro, que não obedecem os modelos organizações das firmas.

É, justamente, na encruzilhada da possibilidade de exercitar maior liberdade e autonomia organizativa e de produzir uma cultura mais diversificada e livre que enxergo a iniciativa da Editora Plus. Uma editora que não depende do mercado para sobreviver, e que portanto não se baliza pela lógica de mercado para escolher suas publicações. Repito o exercício retórico que havia feito acima. Se há uma década, um grupo de pessoas se reunisse para fundar uma editora com o objetivo de publicar os mais diferentes autores, e distribuir suas publicações gratuitamente em todo o território nacional, teríamos certeza do insucesso desta iniciativa. Pois a Editora Plus existe.

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  1. Fernanda disse:

    Muito interessante seu artigo. Porém, me deu algo a pensar: se o exemplo da editora Plus fosse seguido por todas editoras, ou seja, não depender do capitalismo, em breve a profissão de escritor ou autor ou até mesmo jornalista não existiria, dado que escrever seria apenas um hobbie sem fins lucrativos. E seguindo o mesmo raciocínio, estes escritores teriam que se manter de outra forma, dispensando assim menos tempo para escrever e logicamente decaindo na qualidade de seus textos. Penso que se tudo for “free”, a qualidade dos serviços vão cair, já que ninguém teria um compromisso real de escrever um bom livro ou mesmo fazer um programa revolucionário para Pcs. Estaríamos á mercê da boa vontade dos outros. E sem direito de reclamar. O que você acha?

  2. Lineu disse:

    Fernanda, a imensa maioria dos escritores não vive dos rendimentos de suas publicações. Pouquíssimos são os que conseguem, e nem sempre os mais talentosos. Quanto ao jornalismo, acredito que terá de se reinventar. Algo que já está acontecendo. Existem muitas propostas possíveis para se financiar o jornalismo no século XXI. Mais do que a crise do jornalismo, estamos vivendo a crise da grande mídia corporativa. E confesso-lhe não sinto nenhum pesar diante disso.
    Eu, particularmente, sou a favor de mecanismos de financimento público de fomento à produção literária.
    Eu acredito que o compromisso em fazer algo de qualidade, como um bom livro, ou um programa de computador não vem, necessariamente, da perspectiva de auferir lucros do produto de seu trabalho. Grande parte da produção de conhecimento não tem fins mercadológicos. E grande parte desta produção é de alta qualidade.
    Mas não me entenda mal. O mercado é, muitas vezes, a melhor maneira de organizar a esfera produtiva. Porém, temos que reconhecer que a lógica de mercado tem seus limites. E em muitos casos, ela não resolve demandas importantes dos indivíduos e das sociedades.

  3. Eduardo Melo disse:

    Lineu e Fernanda: nem tanto ao mar, nem tanto à terra…

    Eu acredito realmente que escrever não é profissão, então (respeitosamente!) discordo de você, Fernanda. Minha argumentação: Mário Quintana era jornalista. Erico Verissimo, editor. Carlos Drummond de Andrade, farmacêutico e funcionário público. Vinícius de Moraes, diplomata. Rubem Fonseca, delegado. Bukowski, foi carteiro e fez incontáveis bicos até quase 50 anos de idade. Bem poucos autores bons vivem (ou viveram) exclusivamente dos seus escritos. Fazer literatura, para mim, não é profissão, nem coloca comida na mesa. Penso justamente o contrário: trabalhar em outra atividade, além da escrita, expande o horizonte de vida e relações do autor, permita que ele escreva e pense com mais propriedade sobre o mundo ao seu redor. Mesmo indiretamente. Hoje em dia, nossos autores não passam vários anos presos na Sibéria, como Dostoievski, que foi militar durante muitos anos e sofreu duramente para sobreviver.

    Quem são os autores que vivem apenas da literatura, no Brasil, hoje? Paulo Coelho, com certeza. Moacyr Scliar deve ganhar algum dinheiro, mas é médico, dá aulas na Faculdade de Medicina e publica crônicas em jornais. Da literatura, exclusivamente, ele nunca viveu. E sempre escreveu grandes livros. Luis Fernando Verissimo é cronista.

    Quem são, portanto, os “escritores profissionais” de hoje? Os jovens autores, aqueles “quase-famosos”. Esses “vivem” de escrever, ou pelo menos têm essa pretensão. Os que conheço são, na sua esmagadora maioria, oriundos dos cursos de publicidade e comunicação social, tem no máximo até uns trinta e poucos anos de idade (considerando o ano de 2009 como referência). Tem uns quantos desses soltos por aí, que não escreveriam bem nem se fossem presos durante anos na Sibéria. Para essa turma, ser escritor profissional é bonito e estético. Une a pretensão artística individual, justa, com uma bela justificativa, cretina, para não trabalharem. Eles começam sustentados pelos pais – que pagam carros, viagens, edições, temporadas de estudo na França e Estados Unidos. Depois eles se soltam das asas dos pais, para se aninharem, confortavelmente, no seio do Estado. Como diria uma tia minha, olhando as criancinhas inocentes brincando no parque: Riquinhos! E passam a ser sustentados com dinheiro público, recebido através de prêmios de seleção obscura, projetos de qualidade duvidosas, com as “bolsas” da Funarte, edições e filmes financiados com dinheiro público via Leis de Incentivo… aí por diante. Os contribuintes passam a pagar carros, computadores, viagens e edições dessa turma, que seus pais deveriam continuar pagando, e não nós.

    Por isso, eu discordo também do Lineu. Acredito que o dinheiro dos impostos deve ficar muito, muito longe da arte, da literatura, dos jornais. Acredito que o artista precisa saber colocar a própria comida na mesa. Depois, para o dinheiro público chegar até a arte, tem várias porteiras… e os critérios de distribuição desse dinheiro nunca serão livres de favorecimentos. Os artistas que forem mais amigos dos responsáveis pelo cofre, sempre terão vantagem sobre os outros. Me oponho a isso. Não quero saber de burocratas me dizendo o que merece, ou não, ter relevância. Que as pessoas – os consumidores – decidam por si. Alguém pode argumentar que as pessoas não decidem, que elas são “forçadas” a compra X ou Y. Eu penso que, se Crepúsculo ou Harr Potter fossem ruins e mal escritos, ninguém aguentaria passar das primeiras 30 páginas – por mais adolescente que fosse.

    Por isso, soluções ao estilo da Plus são muito desejáveis – as pessoas podem se organizar e decidir, elas próprias, o que merece ser publicado, e como deve ser publicado, sem tutela do Estado, nem tutela do mercado. Contudo… isso só é possível se não tiver dinheiro no meio.

    Fernanda, Lineu, espero que vocês não fiquem chateados com esses meus pensamentos. Fico feliz pelo debate que vocês levantaram, que é bem mais arejado do que qualquer troca de idéias que tenho visto por aí, em outros lugares. O espaço da Plus é justamente para isso: trocarmos conhecimento de forma livre. E arejada.

    Abraço
    Eduardo

  4. Fernanda disse:

    Bem pensado, Eduardo!

  5. Fernanda disse:

    Mas mesmo estes escritores citados por você, publicavam suas obras (alguns em jornais) e recebiam por isso. Se este anticapitalismo editorial existisse há algum tempo, com certeza não conheceríamos o Crepúsculo e nem Harry Potter. Me sinto confortável em saber que os autores de livros que eu admiro ganham algum incentivo finaceiro. Não que eu seja contra qualquer mudança, mas acho que alguma coisa vai ser perdida. Não sei porquê, mas essa idéia de ‘liberar geral’ que a internet transmite me assusta um pouco. Talvez seja só medo do desconhecido.

  6. Eduardo Melo disse:

    Eu não sou contra os autores receberem por suas obras, em absoluto. Eu só não concordo que seja a única fonte de renda deles, a sua “profissão”.

    Espero que você não pense que a Plus faz parte d “anticapitalismo editorial”… porque eu sou um defensor do capitalismo. Graças à concorrência, os e-books estão em constante desenvolvimento, e isso é fantástico. Sou totalmente a favor do mercado! Hehehe.

    Abraço

  7. Lineu disse:

    Eduardo, meu querido, eu creio que o maior tesouro do liberalismo político é a liberdade de divergir e de defender as nossas opinões. Por isso, ao invés de ficar chateado, eu fico feliz com o debate de idéias. Inclusive, achei as suas ponderações muito sensatas.
    Discordo de você quando diz que o dinheiro público não deva ser destinado a atividades artísticas. Agora, a maneira como esse financiamento se dá, é, de fato, muito delicado. Ainda assim, acredito que possam existir formas de financimanto transparentes e democráticas.
    Fernanda, em momento algum eu defendi um “anticapitalismo editorial”, embora eu também não me considere um defensor do capitalismo. Até porque eu acho que o capitalismo não precisa de minha defesa.
    O que eu escrevi no artigo diz respeito a uma transformação estrutural da economia da informação. E no seio desta transformação, emergem práticas sociais que até então eram restritas a localidade de seus grupos, porque os custos para transmiti-las em escalas maiores era inviabilizador. O colapso dos custos comunicacionais no ambiente de redes digitais abre um leque gigantesco de possibilidades de ação coletiva, e boa parte delas extrapola o mercado. Elas dividirão o espaço de producão, distribuição e acesso de informação, cultura e conhecimento com o mercado. Eu acho isso muito positivo. É claro que o mercado não vai desaparecer. Ele está se reinventando, e nisso o mercado é extremamente eficiente. O que deve nos preocupar, é a ecologia institucional que definirá os rumos do ambiente de redes digitais, inclusive a parte física. Mas essa discussão dá muito pano pra manga, e eu não quero monopolizar este espaço.

    Grande Abraço

  8. Fernanda disse:

    Eu também não estou defendendo nenhuma idéia, só estava debatendo porque o artigo me deu muito para pensar e achei que seria interessante saber a opinião de outras pessoas. Acho ótimo ter ebooks grátis, já que eu usufruo dos mesmos há muito tempo! De qualquer forma, gostei de ter lido as ponderações de vocês dois,só veio a acrescentar para mim! Gostei muito deste site, achei todos os artigos bem escritos e inteligentes. Obrigada por terem a paciência de responderem minhas perguntas e discutirem minhas colocações!! :_)

  9. Marcos disse:

    Parabéns Lineu

    Muito articulado seu artigo. Para mim que sou ignorante neste novo universo de produção cultural, seu artigo me fez refletir… e muito.

    No tocante ao financiamento do Estado para a produçãoentão cultural, sou muito a favor, tendo em vista que sou um escritor que foi financiado por uma fundação de apoio à pesquisa do estado da Bahia. Infelizmente, o produto de minha investigação foi e será pouco divulgado/acessado.

    Quanto à revolução na forma de produzir cultura, tenho uma pequena observação. Embora muitas pessoas de fato estejam colaborando na elaboração de produtos culturais como o que você mencionou acima, existe um pormenor que pode lhe ter escapado, ou fugir ao propósito do seu artigo. Grande parte da população no Brasil, por exemplo, não tem acesso ao mundo virtual. Alem disso, muitos que possuem tal acesso, possuem uma deformação educativa formal gritante. Isto inviabiliza sua participação na elaboração dos referidos produtos culturais e torna-os consumidores de produtos de google, orkut, facebook etc. Não que tais espaços sejam nocivos em si, mas que devido à referida deformação, tais espaços virtuais não possibilitam ampliar a transformação apontada em seu artigo, e sim condicionam tais atores sociais ao papel mais uma vez de espectadores. Digo isso, em virtude da minha experiência como educador, não só de nível básico, como também superior.
    Pense nisto.

    Quanto ao escritor profissional, Caro Eduardo, não acho que seja impossível viver de escrever. Algumas pessoas vivem disso: cronistas, jornalistas (de jornais impressos) e autores de novelas. O que não quer dizer que estes escritores sejam os meus preferidos. Particularmente não gosto de muito do que é vendido nas bancas de revistas (e são muitas!!!), mas isso é uma prova de que um número significativo de pessoas vivem da escrita e que portanto são escritores.

    Outra coisa é dizer que se vive de literatura ficcional: romances, contos e poesia. Este campo é realmente difícil achar alguém que viva dele!!! E mesmo neste campo alguns vivem. Paulo Coelho é uma delas; João Ubaldo outra. Embora hoje não goste de Paulo Coelho, sei que muita gente que hoje possui “capacidade de produção e crítica cultural”, leu em algum momento de sua vida “O Alquimista”, eu mesmo li. Ou seja, para quem não gosta de ler até mesmo Paulo Coelho é uma saída!!! Infelizmente tem gente que só leu Paulo Coelho, aí fica difícil!!!

    Isto significa dizer que é sim necessário o incentivo de Estado para a produção de bens culturais, como as boas obras literárias, relatórios científicos, produções cinematográficas. Caso contrário, muito destes produtos serão aqueles que vemos diariamente nas bancas de revistas espalhadas pelo país!

    PS: Adorei o “não defensor do capitalismo”. rsrsrs

    Um abraço
    Marcos Schopenhauer.

  10. O argumento é antigo: o conhecimento não pode ser vendido. Foi utilizado por Platão contra os Sofistas, pois estes, mestres dos gregos, eram remunerados para ensinarem as artes (técnicas) de governo. Platão, membro da nobreza de sangue, repudiou os democratas, os Sofistas. Por quê? Porque eles vendiam os conhecimentos a quem pudesse pagar. A qualquer um que pudesse pagar. Esta a chave, pois “qualquer um” significava plebeu, não bem nascido.
    O trabalho de escrever um livro, seja qual for, é trabalho, portanto merece e deve ser remunerado, assim como o de o produzir e distribuir. Negar isso é, no mínimo, adotar a posição platoniciana, no limite defender o trabalho escravo.
    A posição razoável é a dos trabalhadores assalariados: todo trabalho deve ser remunerado e bem remunerado.
    Ao contrário do que propõe o autor, o capitalista, caso não seja coibido, prefere não pagar pelo trabalho. Certamente há capitalistas que sabem como produzir muito, pagar bem seus trabalhadores e todos lucram. Basta examinar as empresas de TI e outras que trabalham com biotecnologia.
    O financiamento ou incentivo pelo Estado tem seu lado perverso, pois os burocratas geralmente atrelam suas decisões ao que concordam… e pagam com dinheiro de todos nós.
    Sem remuneração, não há autoria; sem autoria, não há editoria; sem venda, nada de recursos para os envolvidos no processo produtivo.
    Livro é mercadoria; escritor é profissão em muitos países. Luciano pode não gostar, assim como Platão também não gostava, mas a vida social antiga e moderna paga seus mestres direta ou indiretamente.

  11. Lineu Oliveira disse:

    Professor Mazzotti, respeito a opinião do senhor. Na verdade, fico lisonjeado de receber uma crítica sua. Seu texto é provocativo, e responde à provocação do título do meu artigo. Mas não posso deixar de colocar a minha perspectiva.

    O livro pode ser uma mercadoria. Mas não é apenas uma mercadoria. Um livro é, normalmente, um produto de um investimento espiritual grandioso. Investimento este, que em muitos casos, não recebe o devido reconhecimento no meio editorial.

    As mudanças decorrentes da publicação e distribuição de obras literárias no ambiente de redes digitais são significativas, e eu não posso ignorar esses fatos. São evidências de estudos sérios, de autores importantes.

    Me perdõe, mas não acho a sua analogia com a produção de conhecimento na Grécia Antiga pertinente. São conjunturas
    históricas completamente distintas. E quanto a defender o trabalho escravo, nem vou comentar. Vou considerar um exercício sarcástico desnecessário.

    Se o argumento do senhor é que sem remuneração não há processo produtivo, como explicaríamos o surgimento das comunidades de software livre ao redor do mundo? Como explicaríamos o surgimento da Wikipédia? E dos outros tantos projetos baseados neste modelo?

    As pessoas precisam de dinheiro para sobreviver. Mas elas também precisam de reconhecimento, de pertencimento a uma comunidade, de sentido.

    Abraço, Lineu (não Luciano)

  12. Desculpe-me, Lineu, pelo engano ao digitar seu nome.

    Não é apenas uma mercadoria… tem valor de uso, claro, pois do contrário não seria desejado, logo não adquirido.

    Os produtores de software livre nada recebem pelo software, mas ganham algum dinheiro com outras atividades, como assessorias etc.

    A Wikipedia, para a qual doei dinheiro recentemente, é uma fundação que recebe recursos diversos, caso contrário não poderia sequer existir.

    Certamente a circulação digital é uma extraordinária transformação, ainda nem sabemos como será daqui por diante. Mas os autores precisam receber pelo trabalho que realizam. Os professores, por exemplo, recebem ou dos governos (salários pagos por impostos) ou da empresas privadas. Eles podem produzir obras que seriam disponíveis gratuitamente, mas raramente isso ocorre.

    A situação histórica da Grécia antiga é diversa da nossa, óbvio. Mas a diretriz platoniciana é de longa duração, pois as pessoas continuam afirmando que o conhecimento não pode ser vendido etc. Seu argumento tem por base a concepção platoniciana, assim como de muitos outros. Nada demais, tem todo o direito de assumir a posição de Platão. Ela implica em não pagar os produtores e agentes de difusão de conhecimentos, sejam eles quais forem. O não pagamento pelo trabalho caracteriza o escravismo, não fui irônico (não se trata de sarcasmo, pois este é contra a pessoa; a ironia contradiz o argumento), apenas dei o nome correto para o que propõe. Talvez devesse ter dito que apenas os sacerdotes divulgam um conhecimento sem receber salários, ainda que recebam dádivas, conforme suas congregações religiosas.

    O argumento central é bem simples: o livro e outros meios de comunicação social têm algum valor de uso, atendem a necessidades subjetivas ou objetivas das pessoas. A circulação pode ser livre por inteiro, mas tem algum custo, este precisa ser coberto de alguma maneira. Uma das maneiras é a venda, com ou sem lucro exagerado, este segundo o comprador. Na atualidade os livros são, no geral, mercadorias, como outras; seus produtores são profissionais ou quase profissionais, dependendo da situação social de cada qual.

    Se quer continuar não vendendo seus produtos, tudo bem. Mas tornar essa decisão uma palavra de ordem para todos, pois pretende uma novo moralidade, então se aproximará dos sacerdotes ou, mais interessante, de Platão.

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