
Esse é o e-book planejado pela CBL. Sobre o direito à posse do livro? "Esse conceito muda também". Crédito da imagem: http://skyisgrey.org/blog/dont-buy-drm-ebooks.html
Isso mesmo, não está escrito errado. Foram as palavras de Henrique Farinha, coordenador dos grupos de pesquisa sobre e-books da Câmara Brasileira do Livro, em entrevista à Veja online ontem, 21 de agosto de 2009. De acordo com Farinha, a CBL viu a necessidade de entender os e-books porque as editoras não querem terminar como a indústria da música, “que foi engolfada pela pirataria e a distribuição gratuita de música pela web”. O problema dos nossos editores está no medo e na presunção de que todos os leitores irão piratear seus e-books, se eles forem disponibilizados.
(Se os e-books que as editoras planejam forem tão caros quantos seus livros impressos, que as pessoas preferem fotocopiar ao invés de adquirir o livro, eu também ficaria sem dormir à noite.)
O jornalista da Veja perguntou ao coordenador como funcionaria o sistema para ler livros em e-readers (Sony, Kindle, etc.) e celulares. A resposta de Farinha foi a seguinte:
O cliente terá uma assinatura que dará direito a acessar uma série de conteúdo, sem baixá-lo. Ele não vai ter mais o direito à posse. Aliás, esse conceito muda também, assim como a questão da remuneração dos autores.
Primeira coisa: leitor deixa de ser leitor, passa a ser cliente. Sentiu a diferença? Leitores lêem livros, e o que eles vão vender não são livros: são direitos.
Eles sim, querem acabar com o livro, transformando o que hoje é uma propriedade adquirida pelo consumidor, em serviço – uma espécie de leasing, onde você adquire o direito de ler, e não a propriedade e posse de um produto, no caso, o livro. Se um livro de papel nós podemos trocar, revender, emprestar para os amigos ou até tirar cópias de uso pessoal, porque com os e-books teria que ser diferente?
A indústria da música tentou, inutilmente, seguir esse caminho. Os consumidores simplesmente não compraram as músicas “protegidas” (leia-se: bloqueadas contra cópias), ou pior, piratearam as músicas – justamente porque elas estavam bloqueadas. As empresas não tiveram escolha e passaram a vender os arquivos liberados, sem “proteções”. E desde então, só se ouve falar que… as vendas aumentam. A turma da CBL sabe disso, tanto que Farinha cita nominalmente o iTunes como um caso de sucesso.
Certamente Farinha e o pessoal da CBL se inspiraram no modelo monopolista da Amazon e em alguns sistemas de empréstimo de e-books por tempo limitado, se eles pensam em vender o direito de leitura do livro eletrônico, ao invés dos livros. Em linhas gerais, nesses modelos de negócio o e-book não pode ser copiado, impresso ou emprestado, e se a empresa/editora quebrar, bye-bye, você fica sem acesso ao livro. Pior ainda, o leitor transformado em cliente se torna refém das políticas das editoras/empresas. Se elas acharem que um livro fere suas políticas, elas deletam o livro – como a Amazon fez recentemente.
Se os e-books forem comercializados de acordo com esse modelo tenebroso, esqueça várias coisas. Esqueça aquela idéia de deixar uma biblioteca enorme para seus filhos e netos. Esqueça ler, daqui a 20 anos, aquele livro que você tanto gosta. Se a empresa quebra, ou se ela não faz novos aparelhos, seus livros ficarão… obsoletos. Ilegíveis. E se perderão no tempo. Já acontece com outras pessoas no exterior, as primeiríssima que apostaram nos e-books. É por essas razões práticas que os e-books precisam ser vendidos sem proteções conta cópia, impressão, etc, sem essa história de “não baixar o conteúdo”. É a melhor maneira de assegurar aos leitores que os livros adquiridos permaneçam acessíveis ao longo dos anos, evitando também que paguem várias vezes pelos mesmos livros.
É uma questão de respeito e consideração pelos leitores. As empresas e editoras consideram que todos os leitores são ladrões, ansiosos por piratear e roubar livros e arruinar seus negócios, então elas precisam se defender deles? Como se a esmagadora maioria dos leitores não fosse comprar os e-books, ao invés de pirateá-los, se eles forem oferecidos em condições de uso e preços justos. O mercado é para quem está disposto a concorrer. Se as empresas têm medo de concorrer e querem se proteger dos seus clientes, azar o delas – outras, mais audaciosas e menos medrosas, certamente vão preencher as lacunas. Nós aqui na Plus trabalhamos para isso. Outras pessoas, e outras empresas, também vão perceber as oportunidades vindo. O capitalismo é belo e genial nessas horas, não parece?
Os e-books atravessam, atualmente, um processo semelhante ao que ocorreu com a música. Claro, há diferenças também. O mercado de e-books ainda não está consolidado, as editoras continuam apostando em saídas de “proteção” (leia-se bloqueio) dos e-books. A Amazon não permite a leitura fora do Kindle – no máximo, a leitura via aplicativo do Kindle no iPhone, e olhe lá. Os leitores adquirem somente o direito de leitura. Já a Sony e outras fabricantes de e-readers, apostam numa tecnologia da Adobe que coloca o livro sob uma proteção eletrônica, muito semelhante à da música, mas que permite cópias limitadas entre aparelhos diferentes, inclusive o computador – algo ainda muito longe do ideal de possuir o livro, mas que segue na direção de devolver aos leitores essa posse que eles sempre tiveram.
O que veremos nos próximos anos é a formação e consolidação de um novo mercado editorial, baseado em novas cadeias de valores e produtos. E finalmente parece que esse processo também vai ocorrer no Brasil, não sem enormes dificuldades impostas a os leitores, pelo visto. Farinha pensa que os e-books serão mais usados para “conteúdos de referência, não romances”. Que estranho… a maioria dos sites que pirateiam livros pirateiam Harry Potter… Crespúsculo… Dan Brown… Bruna Surfistinha… enfim… o descompasso é muito claro.
Se alguém da CBL ver nosso post e quiser mandar sua opinião, oferecemos o mesmo o espaço, com o mesmo destaque.

E-book as planned by BCB. About book's ownership? "The concept changes". Image from http://skyisgrey.org/blog/dont-buy-drm-ebooks.html
By Eduardo Melo (kindly translated by Bernardo Szpilman)
You’ve read it right. Those are the words of Henrique Farinha, coordinator of the Brazilian Chamber of Books’ ebook research groups, interviewed by Veja online (Veja is the leading mainstream brazilian magazine) yesterday, August 21st 2009. According to Farinha, BCB saw the need to understand ebooks because the publishers don’t want to end up like the music industry, “drowned by piracy and the free distribution of music across the web”. The problem with our publishers lies in the fear and presumption that readers will distribute their ebooks freely, once they are made available.
(If the publishers are planning their ebooks to be as expensive as their printed offerings, which so many people currently photocopy instead of buying the original, I can see why they’re pulling their hair over this matter. And I’d be too.)
Veja’s interviewer asked Farinha how would reading books on ereaders (e.g. Sony, Kindle) and mobiles work out. This was his answer:
The customer will sign up for a subscription, giving him the right to access content without downloading it. And he’ll no longer have the right to ownership. Actually, the concept of ownership changes, as does the matter of author’s shares.
First off: no more readership, now we’re talking customers. Feel the difference ? Readers read books, but they’ll no longer be selling books, only permissions.
They are seemingly the ones about to undermine the market, taking what is today acquired property and twisting into a service – they lease you the right to read, but not property of a good, in this case, the book. If we can exchange, sell, lend or even make a copy of a paperback for backup purposes, why should ebooks work any differently?
The music industry has tried, unsuccessfully, to tread this path. Consumers simply wouldn’t buy “secured” music (read: copy-protected) or worse, they would often break the protection and go on to share it in peer-to-peer networks simply because it was originally blocked. Companies were eventually forced into selling files void of protection, “unsecured”. Since then, sales have been steadily going up. The BCB’s folks are aware of this, to the point of Farinha citing iTunes as success case.
Surely BCB is modeling after the monopolizing sistems Amazon and certain ebook lending services have in place, when they speak of selling the right of reading instead of the book. Generally, in such business models the ebook cannot be copied, printed or lent, and if the digital downloads company or even the publisher goes out of business, you can wave goodbye to you ebooks. Worse yet, the reader turned merely customer becomes subject to the ever-changing policies of his providers. If such providers find any reason to erase or block access to a book for you or for all their customers, you’re left out in the cold – as Amazon has been unfortunate enough to do recently.
If ebooks are marketed following this horrifying model, the law-abiding customer can forget about leaving a cultural legacy to his children and grandchildren, or re-reading after 20 years that book dearest to you (unless you’re willing to “pay for it” again). If the company closes it’s doors, or stops supporting your format of choice, your books become… obsolete. Unreadable. And will get lost in time. It’s already happening to people in other countries, ebooks’ enthusiasts and earliest adopters. For these practical reasons, ebooks need to be sold free as in free speech. No losing access to your content. It’s the best way to ensure readers will have their purchased works available as time goes by, and not having to pay for any given book more than once.
It’s a matter of respect and regard for readers. Why do companies and publishers have as their first and foremost concern protecting themselves from readers, their customer base, as if the reader’s primary concern was stealing and bringing them down ? Are they so certain that the overwhelming majority of readers still wouldn’t legally buy ebooks were they sold under fair prices and terms ? The market welcomes whoever’s up for the competition. If a company’s afraid of competing and decides to protect itself from it’s own customers, that’s her bad – bolder and more audacious ones will step up to fill the gap. We’ve seen it happen in the market for english books, especifically american. We at Plus publishing step up in this sense. Other people and companies will, too, reckon with these upcoming opportunities. Capitalism seems to work it’s magic at these times, doesn’t it ?
Ebooks are currently through a process similar to what music has undergone, their differences aside. The ebook market has yet to reach maturity (and remains a toddler in Brazil), publishers are still after the holy grail of surefire protection against their customers. Amazon restricts reading any piece of their extensive catalog outside of the Kindle – the best you get is a Kindle app for iPhone. Readers are bound to purchasing reading rights only with Amazon, whereas Sony and other ereader manufacturers are converging their formats under Adobe’s ePub, which puts the book under an eletronic protection called DRM, very similar to music’s, and allows a limited number of copies for the user’s different reading devices, including the computer itself. Still far from giving you total ownership and control over your books, but a halfway between what we’ve always had with printed books and had BCB wants for us now with ebooks in Brazil.
What we’ll see unfold in the following years is a reform of today’s publishing market, to ground itself on new sets of values and products. And finally it seems like Brazil is climbing aboard the bandwagon, not without the reader’s share of blunders, it seems. Farinha is of the mind that ebooks have far more potential in the textbook department than in novels or your average paperback. It doesn’t seem in the least to work that way when you see Harry Potter, Stephenie Meyer, Dan Brown, Bruna Surfistinha et al towering over any technical books in the darker corners of the internet. We hope the burocrats who decide things for the consumers get in step with current trends, and that time and maturity eventually give us our good ol’ books turned ebooks to be ours alone.
If anyone from BCB comes across this post and wants to voice your opinion, we offer the same spotlight space.
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